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Crianças e Adultos

 

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QUEM TEM RAZÃO
Por Marina Miyazaki Araújo   
16 de fevereiro de 2008

Cada vez que o meu pai começa a fazer barulho, eu vou atrás, é sinal de que ele já quer sair. Tento convencê-lo a ficar, mas meu pai ainda não entende que eu poderia ficar brincando com ele, e ainda não tem paciência, quer logo ir pro outro lado da porta. Dou 'tchau', até dou beijo, ele adora essas coisas.

Meu pai se parece mesmo comigo, adora chaveiros, com chaves de verdade, nunca quer levar aquelas chaves coloridas de plástico. Ele abre a porta e desaparece, não sei o que fica fazendo do outro lado da porta, só sei que demora muito.

Quem sai ganhando é a mamãe, fica comigo a maior parte do tempo. Ela está começando a aprender tudo, eu fico aqui em cima sentado, jogando as coisas para que ela pegue, jogo várias vezes. Agora ela já entendeu que é pra pegar e me devolver, mas enjoa logo. Então, tenho que gritar, ficar bravo, aí ela obedece e continua pegando as coisas pra mim. Ela não percebe que eu estou fazendo uma pesquisa séria, verificando porque as coisas caem no chão e não vão pro teto. É incrível, mas nada, nadinha flutua, e eu faço isso todo dia.


Fico preocupado, mamãe não consegue ficar sem mim, é só eu dar uma fugidinha, fico quietinho no meu canto, estudando os problemas da TV, vendo o que acontece com o pessoal lá dentro...ih, mas não tem jeito, ela está muito dependente, logo me acha e vem correndo. Não me deixa em paz um minuto. E ainda,vem gritando desesperada, tem ciúmes até de uma TV. Não posso pegar qualquer coisa, que ela também quer. Tudo ela quer só pra ela.


Outro dia, finalmente, eu consegui pegar o controle remoto, logo chegou alguém na sala, ufa...ainda bem, era o meu vô, é o único que me entende um pouco mais. Já o ouvi dizendo que eu faço melhoramentos no controle remoto. No dia seguinte, tem sempre alguém tentando refazer o meu serviço, tentando me imitar.


À noite, meu pai sai do outro lado da porta e vem pro lado de cá. Aí ficam os dois no meu pé, eu não consigo terminar nada do que estou fazendo.


Bem, amanhã será um dia complicado, é o meu primeiro dia na escola, vai ser difícil, minha mãe vai ficar daquele jeito, com cara de sofrimento quando eu tiver que deixá-la. Não tem outra saída, vou ter que chorar muito pra que ela tenha certeza de que sentirei sua
falta e de que a amo muito.

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